Denilso de Lima*
CNA? CCAA? Cultura Inglesa? Fisk? Skill? PBF? CEBEU? Estas são algumas das escolas de idiomas mais conhecidas na capital rondoniense. Para os leitores de outras cidades os nomes podem mudar; no entanto, o serviço oferecido continua sendo o mesmo: ensino de inglês ou espanhol.
Os pais ansiosos por verem seus filhos e filhas falando inglês, correm para matriculá-los. Os critérios seguidos, geralmente, são os mesmos: preço ou conveniência. Inconscientemente, porém, o critério status, muitas vezes, fala bem mais alto. "Vou matricular meu filho na escola XYZ porque é a melhor", diz um pai ou uma mãe decidida.
Esta simples declaração suscita algumas perguntas curiosas: 1) como este pai, ou esta mãe, sabe que a escola XYZ é realmente a melhor? 2) que critério é utilizado pelos pais para avaliar a qualidade de um curso de idiomas? 3) a escola eleita é a MELHOR por causa da estrutura física apresentada ou por causa da qualidade de ensino?
A escolha é feita quase que inconscientemente. Você observa a estrutura física da escola e acha que isto é o essencial. A fachada chama sua atenção, então você entra na escola. Ao entrar é recebido calorosamente pela simpática moça da recepção. Ela o atende muitíssimo bem. Depois da troca de algumas palavras, ela lhe mostra as salas super confortáveis com toda uma parafernália tecnológica à disposição do professor. Depois disto, ela lhe mostra o centro multimídia, o material de excelente qualidade, as acomodações. Finalmente, vem o preço. Caso você não goste, ela lhe dará um desconto fantástico e irrecusável.
Observe que no parágrafo acima vimos como você - pai ou mãe - é levado a fazer a matrícula em um curso de idiomas. Contudo, vamos analisar rapidamente cada um destes itens.
A ESTRUTURA FÍSICA - Este é o chamariz da escola. O prédio é moderno. Possui um projeto arquitetônico arrojado. As cores são lindas e chamativas. Sem contar o magnífico jardim, a iluminação, etc. Curiosamente, em todas as escolas as salas de aulas são idênticas: quatro paredes, um quadro na parede, um tocador de CDs e um conjunto de carteiras. A fachada é realmente deslumbrante, as salas de aula, porém, continuam quadradas.
A MOÇA DA RECEPÇÃO - Estas profissionais são treinadas a lhe cativar. Elas são simpáticas, amigáveis, sorridentes, etc. É o trabalho delas. Elas recebem treinamento para isto. No entanto, tenha em mente que não é esta moça quem dará aulas ao seu filho.
SALAS SUPER CONFORTÁVEIS - Sala de aula com péssima iluminação, cadeiras desconfortáveis e sem ar-condicionado são coisas do passado. É obrigatório a qualquer curso de idiomas dispor de salas super confortáveis. Estes itens não são mais tidos como um diferencial entre as escolas. Na verdade, são itens indispensáveis. A parafernália tecnológica - televisão, aparelho de som, DVD, vídeo cassete, computador - são, na maioria das vezes, enfeites. Raramente serão utilizados pelos professores.
O CENTRO MULTIMÍDIA - São aquelas salas repletas de computadores. Lembram uma lan house. Quase nunca são usadas para o fim ao qual foram criadas. As crianças geralmente usam a sala multimídia de um curso de idiomas para bater papo na internet - claro que em português -, jogar on-line, deixar recados no Orkut do amiguinho, visitar alguns sites interessantes (ou não!), etc. São poucos os momentos em que estas salas são utilizadas para uma atividade em inglês: leitura de um jornal, ouvir uma rádio americana, bater papo com estrangeiros, utilização de CD-ROMs com atividades em inglês, etc.
MATERIAL DE QUALIDADE - Este tem sempre um bom papel, é cheio de figurinhas e bem colorido. É um espetáculo. Só que o seu filho vai aprender inglês e não se tornar um crítico literário ou artista gráfico.
O PREÇO - Nem sempre ele é atraente, mas tem de ser assim mesmo. Faz parte do sistema. Afinal, a escola tem que mostrar a você que ela está sendo camarada ao oferecer descontos promocionais incríveis. Você é levado a acreditar que esta levando vantagem. A escola faz você se sentir especial. Conseqüentemente, você espalhará aos seus amigos e vizinhos que aquela é a melhor escola de inglês da cidade.
Acima falamos de vários itens. Se você já passou por esta experiência, sabe que é realmente assim que o processo todo ocorre. Observe que em momento algum falamos da qualidade de ensino; do professor; do método usado; da quantidade de alunos por turma; do conteúdo a ser ensinado; do tempo que seu filho estará se virando, em inglês, nas situações cotidianas mais básicas.
Mas não pense que decorando estas perguntas você se tornará em um expert em avaliar as escolas disponíveis. As respostas podem, também, ser ensaiadas pelas recepcionistas. Moral da história: você acaba caindo na mesma história de antes e achar que aquela é a melhor escola. Neste caso, permita-me dar-lhe algumas dicas para não se sentir inseguro.
O PROFESSOR - Peça fundamental do processo! Saiba o nome dele ou dela. Tente conversar com o futuro professor do seu filho. Converse com alguns (ex-)alunos dele. Procure saber qual a opinião dos (ex-)alunos sobre o professor: a didática, o carisma, a empatia, a paciência, a segurança ao passar as informações, a competência e o comprometimento profissional dele. Enfim, avalie o professor profissionalmente. Não importa se morou nos Estados Unidos por tantos anos ou se fez curso na Inglaterra. Afinal, você mora no Brasil há muito tempo e nem por isto é professor de língua portuguesa, não é verdade? Informe-se se ele já fez algum exame de proficiência - estes certificados de proficiência são conquistados depois de muito estudo e geralmente por meio de uma prova que avalia o candidato em todas as áreas da língua inglesa. Os mais famosos são: TOEFL, FCE, CAE, CPE, IELTS. O professor está informado sobre sua categoria profissional. Profissionais da área de ensino de língua inglesa sabem sobre sua categoria. Há no Brasil uma associação de professores de língua inglesa para falantes de outras línguas - BRAZ-TESOL. Em nosso estado são poucos professores filiados a ela e praticamente nenhuma escola incentiva seus professores a se filiarem a ela.
O MÉTODO - Os mais comuns no Brasil são: o áudio-lingual e a abordagem comunicativa. O áudio-lingual se popularizou na década de 1960. A ênfase esta na aquisição de vocabulário isolado e de regrinhas gramaticais. Já a abordagem comunicativa ganhou popularidade na década de 1980. No Brasil, ele foi adaptado e se afastou muito da proposta sugerida por seu criador. Nele os alunos aprendem algumas frases a serem usadas em determinadas situações; contudo, a ênfase ainda é dada à gramática. Há outros métodos e abordagens estranhos: Abordagem Lexical, Método Callan, Task-based Learning, Silent Way, Teaching Unplugged, etc. Meu conselho é que você opte por uma escola com a qual você, ou seu filho, se sinta à vontade com o método usado. Para isto, tente assistir algumas aulas antes de tomar a decisão definitiva. Chegue na escola sem avisar e diga que gostaria de assistir a uma aula. Assim você terá uma idéia de como as coisas realmente funcionam. Pergunte qual método utilizado pela escola, anote em um papel e pesquise na internet sobre ele. Ao longo do tempo verifique se a escola se mantém "fiel" ao método utilizado.
O NÚMERO DE ALUNOS EM SALA - O ideal é que a sala tenha no máximo doze alunos; quinze é o limite máximo. Mais de quinze é bagunça na certa. O professor não dá conta de ajudar vinte alunos ao mesmo tempo. Lembre-se estamos falando de aprender outra língua e não uma disciplina escolar. Se você quiser aprender apenas a gramática da língua inglesa, então tudo bem - neste caso pode haver quantos alunos a sala comportar. Porém, se o objetivo é falar inglês, então exija no contrato que a turma tenha apenas entre dez a quinze alunos. As escolas costumam anunciar turmas reduzidas. No entanto, Quando você entra na sala, no primeiro dia de aula, mal tem lugar para você se sentar. A desculpa que os donos de escolas dão é a seguinte: "acontece que muita gente vai desistir ao longo do curso, por isto colocamos vinte alunos, ou mais, na sala." Preste atenção nesta declaração! Se o dono tem a melhor escola da cidade porque é que ele conta com a desistência de seus alunos? Há algo de estranho nisto, você não concorda?
O CONTEÚDO A SER ENSINADO - Não se iluda se disserem que seu filho aprenderá as cores, os animais, as partes da casa, os móveis, materiais escolares, etc. Isto não significa saber inglês. Pense nisto: com que freqüência você costuma falar as cores em português? E que tal o nome dos animais? As partes da casa geralmente são faladas em sentenças e não isoladamente. Se o representante da escola falar em gramática, cuidado. Pode ser que seu filho aprenda algumas regrinhas gramaticais incompreensíveis. Não "entendemos" nem mesmo as regras gramaticais da nossa própria língua como podemos entender as de uma outra língua totalmente nova. Se você não sabe inglês, exija que a escola diga com todas as letras o que seu filho aprenderá a falar em cada nível, em que situações ele será capaz de se comunicar - restaurante, aeroporto, solicitando informações, hotel, etc.
O TEMPO - Em um ano o aluno deve ser capaz de se comunicar nas situações mais essenciais da vida - restaurante, hotel, aeroporto, lojas, ruas, etc. Um ano e meio é o máximo tolerável. Se em dois anos seu filho ainda não estiver se virando nas situações mais corriqueiras, desconfie. Para atingir o nível avançado o tempo médio é de dois anos e meio a três anos. Tem escola cujo curso completo dura oito anos. Dá para fazer duas faculdades durante este tempo, não dá? É claro que estamos tratando aqui do ato de falar inglês e não dá gramática. Gramática leva muito mais tempo. Responda, há quanto tempo você fala português? Você sabe toda a gramática da nossa língua? Então, pense nisto com relação ao inglês. O ideal é que a escola prepare seus alunos para aprender inglês por conta própria depois de algum tempo. O problema é que o aluno deve estar motivado a isto, caso contrário ele poderá estudar inglês a vida toda e nunca se sentir um falante competente. Uma última dica é você solicitar o número de telefone de alguns alunos dos níveis avançados e perguntar o grau de satisfação deles com a escola no geral e se eles se sentem felizes com o inglês que aprenderam.
No geral, o importante é juntar tantos os pontos a ter cuidado, quanto os pontos a serem realmente considerados. Contudo, nem sempre isto será possível. Então opte pelos pontos que realmente importam. Exija realmente o melhor para seu filho - ou para você mesmo.
Não se iluda com o fato de a escola ser maravilhosa por fora. Não se preocupe muito com o status. A não ser que você tenha dinheiro para jogar fora durante muito tempo. Neste caso recomendo que você coloque este dinheiro em uma poupança e no futuro pague uma viagem de intercâmbio para seu filho. Vale muito mais a pena!
Exija sempre o melhor no que se refere à educação. Aprender inglês, ou qualquer outra língua, é algo sério. A seriedade, portanto, deverá partir de você. Desta forma, as escolas se sentirão pressionadas a serem cada vez melhor em todos os quesitos, não apenas na fachada.
* Professor (filiado ao Braz-TESOL), pesquisador, palestrante e escritor - Inglês na Ponta da Língua, Editora Elsevier/Campus. Saiba mais sobre seu trabalho em www.denilsodelima.pop.com.br ou contate-o pelo telefone (69)9228 0524 ou denilsolima@gmail.com
:: Artigo publicado no Jornal Estadão do norte
Dia 20/03/2006
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